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Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Ouro Preto

Depoimento sobre seus elementos artísticos e o tratamento de conservação realizado em 2007

Medalhão da Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Ouro Preto

Por Adriano Ramos
Pesquisador e restaurador do Grupo Oficina de Restauro

Existem certas edificações que primam pela elegância e bom gosto. A Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto é uma delas, resultado do cuidado dos mesários da associação na escolha dos oficiais para a empreitada demonstrando com exatidão a capacidade gestora desse grupo de cidadãos incumbidos de coordenar os trabalhos de ereção e ornamentação do majestoso templo.

Manoel Francisco Lisboa foi responsável pelo projeto arquitetônico até 1766, ano de seu falecimento, quando foi substituído por uma equipe da qual fazia parte seu filho Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que implantou significativa alteração na fachada ao refazê-la levemente sinuosa e esculpir em pedra-sabão o frontispício com o brasão que representa o Monte Carmelo, plasticamente abrilhantado com a marca inconfundível do cinzel, pela presença de anjos e querubins, que o rodeiam. Além de dois retábulos laterais na nave, o Aleijadinho esculpiu, também na pedra-sabão, o lavabo da sacristia. 

Na documentação existente sobre a edificação da igreja, publicada por Antônio Francisco Lopes no seu livro intitulado “A história da construção da igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo” (*), constam nomes dos artistas mais importantes do período, ora citados como autores dos riscos que seriam objetos de análise dos mesários da irmandade para possível aprovação ora mencionados como os verdadeiros executores das obras que decoram o interior do templo. Dentre esses artistas é digno de registro o nome do desenhista e abridor de cunhos João Gomes Batista - parece que esta seja a única menção a sua pessoa relacionada à decoração interna de um monumento religioso –, citado nos registros da irmandade como responsável pelo risco dos dois púlpitos da nave. A sua chegada a Minas ocorreu em meados do setecentos para atuar na Casa de Fundição de Vila Rica, quando têm início as aulas de desenho ministradas por ele e que segundo alguns especialistas são freqüentadas por diversos artistas incluído Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A presença desse discípulo de Antônio Megin e adepto do novo gosto francês da corte de Luís XV em terras mineiras introduziu novos alentos à arte ali produzida no período rococó, enriquecendo o ambiente artístico da capitania.

Outra presença marcante na igreja do Carmo de Ouro Preto e de grande importância no cenário da arte sacra exercida em Minas é a de Manoel da Costa Ataíde, cuja contribuição abrangeu o douramento da pedra da cantaria interna do monumento e a feitura do risco do retábulo-mor que foi concluído em 1813 por Vicente Alves da Costa e cuja obra de talha foi executada na Barra do Bacalhau, tendo sido auxiliado nos trabalhos por outros entalhadores, entre eles Agostinho José da Silva. O douramento do retábulo após a sua conclusão ficou a cargo de Ataíde. Sobre esse retábulo Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira em seu “O Rococó Religioso no Brasil e seus antecedentes europeus”(*), no capítulo referente à tipologia da talha no período rococó em Minas, após discorrer sobre os retábulos com coroamento em arbaleta muito utilizados por Francisco Vieira Servas e antes de adentrar os retábulos projetados e executados por Aleijadinho, cuja característica evidente é a presença no coroamento de um grupo de imagens esculpidas, analisa este modelo de retábulo-mor e que tem um outro exemplar, idealizado a partir do mesmo risco e executado por Luís pinheiro entre 1776 e 1778 na igreja de São Francisco de Assis em Mariana. Sobre eles a referida historiadora comenta “... Um segundo modelo de retábulo de altar-mor, adotado em Minas por volta de 1776, aproxima-se das criações do rococó litorâneo, notadamente em Pernambuco e no Rio de Janeiro, vinculadas a protótipos portugueses. Sua principal característica é a forma do coroamento em frontão, com curvas e contracurvas em forte oposição, tendo ao centro pequeno espaço ocupado por um brasão ornamental...”.

Os retábulos da nave também confeccionados obedecendo aos padrões utilizados no estilo rococó tiveram três diferentes autores, sendo os dois retábulos que se situam ao centro de cada lado da nave, atribuídos a Antônio Francisco Lisboa e outros dois a Justino Ferreira de Andrade, seu discípulo. Através de pesquisas realizadas mais recentemente, descobriu-se que Francisco Vieira Servas muito presumivelmente tenha sido o responsável pela confecção dos dois outros retábulos que se posicionam próximo ao arco-cruzeiro. Os traços anatômicos dos querubins que compõem os referidos retábulos, cujos rostos apresentam-se rechonchudos, a terminação dos cabelos em forma de vírgula sobre a testa e a mesma simetria da boca, do nariz e dos olhos na resolução das faces, indicam algumas das características mais evidentes de Servas.  

Há que se registrar o fato de que praticamente toda a responsabilidade pelo quesito madeiramento da igreja, incluindo-se os retábulos laterais, ficou a cargo de Manoel Francisco de Araújo. Responsável pelos riscos de diversos monumentos nas atuais cidades de Ouro Preto e Mariana, esse carpinteiro e mestre de obras, natural da região do Minho, em Portugal, segundo Ivo Porto de Menezes (*) arrematou várias obras de talha, cabendo-lhe executar algumas delas e nelas colocando “...à sua custa entalhador capaz....” (*). Esse procedimento era muitíssimo comum na época; as irmandades terceiras contratavam o serviço a um mestre de obras da sua confiança e este mestre sub contratava os serviços específicos a entalhadores como ocorreu com os retábulos e púlpitos da nave da igreja do Carmo. Manoel Francisco de Araújo foi também, em 1784, o responsável pelo assentamento dos azulejos da capela-mor do referido templo.

A pintura do forro da sacristia executada no início do século XIX, erroneamente atribuída a Manoel da Costa Ataíde, apresenta todas as características peculiares a um outro importante artista da época, responsável entre outras obras pelas pinturas dos forros da nave e capela-mor da Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Santa Bárbara e da decoração pictórica da sacristia e dos retábulos laterais da igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto. Trata-se de Manoel Ribeiro Rosa, cujo trabalho, nas palavras do historiador Célio Macedo Alves na revista Telas e Artes (*), “... faz ressaltar, a primeira vista, a preciosidade de seu desenho, de apurada delicadeza, em que as figuras e demais elementos (rocalhas, flores, árvores, animais, arquitetura fingida etc.) são muito bem elaborados e o colorido bem utilizado no contorno volumétrico das figuras...”. Outra característica mencionada por Macedo Alves diz respeito aos “... cabelos detalhados, distribuídos em mechas onduladas, com jogo de claro-escuros – característica também presente nos bigodes e barbas. Nas mulheres, costuma deixar duas pontas onduladas caídas à frente...”.

A porta tapa-vento foi confeccionada em madeira e foi decorada pelo pintor italiano Angeli Clerici no ano de 1908. Também são de sua autoria as pinturas dos forros da capela-mor e da nave.
A igreja de Nossa Senhora do Carmo foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, em 20 de abril de 1938, Processo nº 110-T, Inscrição nº 33, Livro de Belas Artes.

Como mencionado anteriormente, os cuidados dos mesários da irmandade da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo na escolha dos oficiais para participarem da empreitada, bem como a atenção com a qualidade dos materiais empregados na confecção dos elementos decorativos aliado ao fato dos responsáveis pela igreja zelarem primorosamente pelo seu patrimônio no decorrer dos anos fez com que esse magnífico acervo se mantivesse em bom estado de conservação, uma vez comparado à decoração de outros monumentos da época. No entanto, há problemas de várias esferas a serem sanados, resultantes dos danos naturais causados pela ação do tempo, que afetaram desde as obras confeccionadas em pedra-sabão como é o caso do frontispício da fachada, o madeiramento do tabuado do forro da nave e das esculturas representando a “via crucis” de Cristo nos retábulos laterais, o estuque com pintura do forro da capela-mor até as telas representando São Luís Rei de França, na sacristia.

Como é de conhecimento geral, todos os objetos artísticos, independentemente do material utilizado em sua confecção, estão sujeitos a danos que podem ser causados, entre outros fatores, por agentes físicos, químicos ou biológicos. A prevenção contra esses agentes, exercida através de ações que procurem manter a integridade da obra ou que interrompam qualquer tipo de degradação, faz com que se evitem intervenções mais complexas e, portanto, de custo mais elevado, em épocas posteriores.

Os serviços realizados em alguns dos elementos artísticos da igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, além da imunização preventiva do madeiramento contra ataques dos insetos xilófagos, compreenderam a fixação e limpeza das pinturas e do douramento, de forma que o processo de deterioração fosse interrompido e que a decoração interna ficasse esteticamente mais apresentável após a limpeza da sujidade aderida sobre a sua superfície pictórica.

Iniciados em dezembro de 2006, por intermédio do Instituto Cultural Flávio Gutierrez e com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Social, BNDES, os serviços de conservação realizados pelo Grupo Oficina de Restauro nos seis retábulos da nave e na porta tapa-vento da igreja do Carmo foram concluídos em fins de abril de 2007. No que diz respeito ao tratamento dispensado à edificação foram executados pela empresa Total Engenharia a recuperação da cobertura, a pintura externa do prédio, a substituição da fiação elétrica e a limpeza de toda a cantaria externa.

Paralelamente à execução propriamente dita dos serviços, a intervenção foi acompanhada pelos visitantes, turistas ou mesmo pessoas interessadas da própria cidade, a partir da decisão de que o monumento permanecesse aberto durante a intervenção. Para facilitar a compreensão do processo a que os elementos artísticos estavam sendo submetidos, um texto explicativo com fotografias foi exposto no interior da igreja e os guias turísticos informados a respeito dos trabalhos. A equipe foi composta por um restaurador, um técnico em restauração, dois auxiliares técnicos, um marceneiro e um ajudante indicado pela própria irmandade, de forma que seus integrantes pudessem através desse ajudante aprendiz, acompanhar todos os procedimentos e cuidados adotados para com os elementos de artes aplicados à igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto.

(*) LOPES, Francisco Antonio - História da Construção da Igreja do Carmo de Ouro Preto, R.J., 1942 MARIANO FILHO, José - Estudos da Arte Brasileira.
(*) Livro 1º de Termos da Ordem Terceira do Carmo de Vila Rica – pag 249, verso – Condição de arrematação.
(*) Menezes, Ivo Porto -  Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Rio de Janeiro, nº 18, Ministério da Educação e Cultura, 1978; pág 84.

 

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