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Arte da Devoção

"Vou voltar para casa “de a pé". . Em mais de 30 anos de colecionismo, Ângela Gutierrez, na maioria das vezes, é quem foi atrás de oratórios, Sant’Anas e objetos ligados ao trabalho manual. Em sua fazenda, na região de Sete Lagoas, a colecionadora se surpreendeu com a chegada de um homem, vindo de Curvelo, que levava uma Sant’Ana para vender. Mas só admitia a negociação caso Ângela comprasse, também, o cavalo e o potro que o acompanhavam. "Não houve santo que o convencesse do contrário", relembra ela, que chegou a perguntar como ele voltaria para casa. "Com o dinheiro que a senhora me der, vou pelo asfalto e pego um ônibus." E assim foi. 

Nessa vida de ir atrás da memória, como ela mesma define, Ângela Gutierrez descobriu que uma coleção é mais importante que o próprio colecionador. Para os oratórios, inaugurou, em 1998, o museu em Ouro Preto. Aguarda, para até o fim do ano, a abertura, na Praça da Estação, do Museu de Artes e Ofícios, que vai reunir duas mil peças. As 260 Sant’Anas que fazem parte de sua coleção permanecem na fazenda da empresária que espera, para o futuro, encontrar um espaço para transformar em museu. Até então, as peças só foram levadas a público em duas ocasiões: há dois anos, no Museu Carlos Costa Pinto, em Salvador, e, em 2004, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. Em Belo Horizonte, as Sant’Anas poderão ser vistas a partir de amanhã, na exposição que será aberta na Sala Multiuso do ESTADO DE MINAS. Em junho, as obras seguem para a França— em 23 do próximo mês será aberta uma mostra no Palais Lascaris, em Nice, com patrocínio da Acesita.

Ao colecionar peças, Ângela Gutierrez, que assina a curadoria da exposição, passou a colecionar também histórias. "No nosso país, a história está muito ligada à mulher, pois foi ela quem sempre rezou, esperou e agradeceu. Quando estava pesquisando o uso do oratório, vi que ele era muito mais feminino do que masculino. Com Sant’Ana isso acontece da mesma forma, pois ela marca a presença da mulher na fé católica, principalmente por ser a mãe da mãe do Salvador."

A colecionadora vai onde tiver que ir em busca das obras. "Se me falarem que tem urna Sant’Ana brasileira em Hong-Kong, vou pra lá. Não é nem para tê-la, mas para saber a história, por que está ali. Nessa busca, não fiquei somente nos antiquários. Andei pelo interior, por fazendas. Para se ter uma ideia, achei uma Sant’Ana mineira na feira de San Telmo em Buenos Aires. Em Londres, numa feirinha de bairro, dessas que se encontram discos velhos, botões e cartões-postais, encontrei outra.

Responsável pela pesquisa, texto e montagem da exposição, Adriano Reis Ramos, do Grupo Oficina de Restauro, explica que as obras — datadas do século XVII ao XX — serão divididas, didaticamente, de acordo com a iconografia e a evolução estilística. "Vai haver grupos de Santas Mães (Sant'Ana junto a Nossa Senhora e o Menino Jesus), Sant’Anas-Mestras (sentada com livro na mão)- Sant'Anas-Guias (de pé, segurando a mão de Maria ou com ela no colo). Há também umas 40 peças em miniaturas. Um dos destaques é o grupo da região do Vale do Piranga (Zona da Mata mineira), que produziu uma escola no final do século XVIII, início do XIX."

Existem ainda reuniões de Sant'Anas originárias de Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Goiás e Maranhão.

Cada período tem suas próprias características. "No século XVIII, com o barroco, há muita sinuosidade nas peças, a expressão é teatral, enquanto no século XVII é mais estática. No século XIX há uma volta ao gosto clássico, então as peças são mais retas. No XX, é tudo muito livre, tanto que não há uma característica marcante", explica o pesquisador e restaurador.

Grande parte das imagens foi confeccionada em madeira, mas há exemplares em pedra e terracota. "No Brasil, temos escolas fortes na Bahia, São Paulo, Pernambuco e Minas. Todas elas são bem características. A baiana é colorida, dourada. A mineira é mais contida e recatada", continua Adriano. Outra marca das Sant'Anas brasileiras é que elas foram confeccionadas por artistas populares. "E isso é encantador. Na Europa, elas são eruditas e suntuosas. Quando eles virem as reinterpretações do artista de cunho popular, vão ficar loucos. As interpretações são muito livres, há aquelas que a pessoa representa a si própria ou à família. Estamos com um pensamento futuro de trabalhar em cima disso, mostrar como os olhares dessas Sant'Anas representam o nosso povo", conclui Adriano Reis Ramos. 

Exposição de Sant’Anas que ocorreu na Sala Multiuso do ESTADO DE MINAS – Belo Horizonte
Mariana Peixoto – Estado de Minas, 10 de maio de 2005 

 

 

 

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