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Mestre Piranga - Só pesquisa põe fim ao mistério
Identificação de Mestre Piranga depende de estudos em arquivos e igrejas do interior de Minas Gerais sobre as atividades de Antônio Meireles Pinto e José Meireles Pinto.

 

O legado atribuído a Mestre Piranga retrata período da história de Minas Gerais marcado pela presença atuante de renomados artistas, que produziam obras com características próprias se comparadas às de outros centros da colônia. As esculturas são marcadas pela leveza, ascendência, afetação, assimetria e, em muitos casos, aliam o aspecto caricatural ao tratamento refinado das figuras, como revelam as imagens em tamanho natural dos Passos da Paixão de Congonhas, assinadas por Aleijadinho e consideradas Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

O ambiente propício para a proliferação de capelas e igrejas nas áreas rurais também contribuiu para o surgimento de significativa quantidade de escultores populares em Minas, cujas identidades, assim como a de Mestre Piranga, permanecem no anonimato. A intenção dos pesquisadores Adriano Ramos e Célio Macedo Alves, a partir da descoberta de pistas sobre a possível identidade do artista que atuou na região do Vale do Piranga, é buscar apoio para intensificar as investigações e solucionar o mistério.

“Se ficarmos uns seis meses mergulhados em arquivos e pesquisando na região, novas descobertas surgirão”, aposta Adriano. A linha de trabalho que pretendem desenvolver defende que há fortes possibilidades de Antônio Meireles Pinto, José Meireles Pinto, ou os dois juntos, desvendarem o mistério em torno de Mestre Piranga.

ARGUMENTOS

De acordo com os pesquisadores, praticamente todos os artistas envolvidos na decoração interna dos monumentos da região do Vale do Piranga (inclusive do Santuário do Bom Jesus do Matozinhos do Bacalhau) já tiveram as respectivas obras estudadas. Constatou-se que nem o irmão de Aleijadinho, padre Antônio Félix Lisboa, nem mesmo os escultores Manoel Dias e Vicente Fernandes Pinto (o qual, presume-se, poderia ter algum parentesco com a família Meireles Pinto) apresentam características formais parecidas às de Mestre Piranga. O mesmo não ocorre com os indícios encontrados nos trabalhos de Antônio de Meireles Pinto e José de Meireles Pinto.

A constante presença na região da família Meireles Pinto, comprovada documentalmente de 1780 à segunda década do século 19, fortalece a tese de que eles ou um deles era o responsável pela oficina atribuída a Mestre Piranga.

Por outro lado, a descoberta, nos arquivos da Casa Setecentista de Mariana, de documentos que relacionam Antônio de Meireles Pinto com Rio Pomba (em 1806, foi citado como entalhador; e português, em 1813, em ação cível envolvendo questão de terras), aliada ao fato de ter sido encontrada na região uma imagem (Nossa Senhora das Mercês) com todas as características de Mestre Piranga, reforça a tese de que a linha de investigação adotada pelos especialistas Adriano Ramos e Célio Macedo Alves pode estar no caminho certo.

A voz do povo

A notícia de que a imagem de Nossa Senhora das Mercês pode ser de Mestre Piranga pegou de surpresa os habitantes de Mercês, município de 10 mil habitantes da Zona da Mata, distante 230 quilômetros de Belo Horizonte. Nos arquivos da paróquia onde a imagem da padroeira ocupa o centro do altar-mor, não há documentação que comprove a ligação da escultura com o artista que atuou de forma intensa no Vale do Piranga. Mas, de acordo com o padre Valter Magno de Carvalho, a suspeita não é novidade.

“Já ouvi o cônego de Dores do Turvo, Nelson Marota, de 90 anos, comentar sobre a possibilidade de ela ser de Mestre Piranga. São imagens antigas, não temos a data precisa de quando elas foram feitas”, afirma padre Valter. O cônego confirma a conversa, mas não se lembra de detalhes dela. “Não tenho a menor lembrança de quem me contou, já faz bastante tempo, me esqueci por completo. Só me lembro de que foi levantada esta suspeita”, confirma.

A aparência de Nossa Senhora das Mercês não é a mesma da época em que a imagem foi criada, como mostra uma foto antiga encontrada na sacristia da própria igreja. A Nossa Senhora das Mercês atual tem o manto coberto por camada espessa de tinta azul claro, bem diferente da sutileza do bege de antigamente. O padre Valter Carvalho conta que, na década de 1980, a imagem passou por processo de restauração e foi repintada. “Temos o maior interesse em restaurá-la, devolvendo-lhe a aparência original. Mas o processo é caro. Quando cheguei, as imagens usadas na Semana Santa estavam infestadas de cupins. Tivemos de recuperá-las com urgência”.

A possível autoria da imagem intriga os fiéis. O sacristão Valdeis Heleno de Souza nunca ouviu falar sobre o assunto. “Tenho bastante curiosidade em descobrir quem é o responsável, pois essa imagem é símbolo de muita fé. O jubileu de setembro atrai gente de toda a região”, diz. Outra que também está intrigada em relação à santa é a auxiliar de serviços gerais Glória Coelho. “É uma imagem muito bonita, antiga, e ninguém sabe ao certo quem a fez. O mistério só aumenta nossa curiosidade”, conclui.

Autor: Sérgio Rodrigo Reis
Jornal Estado de Minas

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